Não sabemos de nada

O empirismo é uma ciência filosófica que nos diz que o conhecimento deriva principalmente da experiência sensorial, filosofia essa já estudada na antiguidade clássica por Aristóteles e mais tarde desenvolvida para o conceito moderno por figuras como David Hume e John Locke, considerado líder do chamado empirismo britânico, que viria a fazer do empirismo parte fundamental do método científico na formulação de hipóteses e teorias. Recentemente tive uma experiência traumática na minha vida, mas que me abriu a cabeça para uma série de questões importantes, inclusive para a minha profissão de arquiteto e urbanista, costumo sempre buscar os pontos positivos até mesmo das piores situações e nesse caso não só não foi diferente como pude absorver muita coisa boa e importante para a minha formação como profissional e até mesmo como ser humano e que agora compartilho através deste artigo. No 2º semestre do ano passado passei por um processo cirúrgico considerado de alta complexidade em um dos joelhos, cujos motivos não irei detalhar, porque realmente não faz diferença para a proposta do texto, o que importa aqui é saber que todo o processo me deixou numa situação de mobilidade extremamente reduzida, no total foram 3 meses preso entre uma cadeira de rodas e uma cama, mais 2 meses usando muletas e pelo menos mais um mês andando de forma ainda debilitada e lenta. Toda essa experiência me fez passar por uma série de transtornos, ligados principalmente à acessibilidade, dentre idas ao médico e fisioterapia e até quando resolvi retomar minha vida social e profissional, todos esses problemas me fizeram refletir e chegar a conclusão do quão egoísta eu estava sendo em achar que sabia alguma coisa sobre acessibilidade como arquiteto, quando na verdade não sabemos de nada e consequentemente essa reflexão me fez pensar também sobre como as vezes deixamos de ouvir as pessoas por achar que nossa técnica resolverá todos os problemas na hora intervir tanto no edifício quanto na cidade.

Dentre as diversas situações terríveis que passei no que tange à acessibilidade posso aqui citar algumas, como, por exemplo, no festival de aberrações de quando fui a um edifício de clínicas particulares, anexo de um hospital particular (isso mesmo, um hospital), para uma consulta antes da cirurgia, ainda preso à cadeira de rodas, e já sou recebido por uma soleira que não me permitia subir sem a ajuda de alguém para empurrar, mais a frente chego num balcão de atendimento onde, pela sua grande altura, a recepcionista não teria me visto se não fosse a pessoa que me acompanhava, sou então direcionado a um certo pavimento e ao chegar no elevador, um tapete decorativo simplesmente trava minha cadeira de rodas que precisou de uma segunda pessoa para empurrar e me tirar daquela situação vexatória. Foram diversas experiências, posso citar ainda o fato de ter descoberto o quanto o piso em pedra portuguesa é terrível para quem tem mobilidade reduzida como eu tive, o quanto a cidade é extremamente hostil e perigosa a esse público, que se vê sempre sufocado por calçadas minúsculas e sem a pavimentação correta e uma cidade pensada quase sempre de forma individualista e baseada na cultura do automóvel particular em detrimento do pedestre que mesmo com a saúde em dia, passa por diversos sufocos, agora imagine quem não tem. O prefeito de Bogotá, na Colômbia, Enrique Peñalosa tem uma citação interessante sobre tudo isso, ele diz que uma cidade pensada para cadeirantes, idosos, crianças e gestantes será uma cidade boa para todos e esse ainda é o grande desafio das cidades brasileiras, passar a pensar cidade como bem coletivo e não individual.


Mas voltando ao título do artigo, creio que você deve ter entendido onde eu quero chegar com o texto, sobre o quanto é importante ouvir o usuário, ouvir aquele que passa pelo problema que você não passa, que sua técnica acadêmica pode não valer nada sem a participação de quem será atingido pela sua intervenção, mas você tem o poder de transformar essa realidade, porém você acha mesmo que eu sei tudo sobre acessibilidade depois do que passei? Não, eu não sei, mais uma vez eu repito, nós não sabemos de nada, minha deficiência foi temporária, certamente não passei metade dos transtornos de alguém que tem problemas assim, mas de caráter permanente, ou mesmo quem possui outras deficiências que vão além da cadeiras de rodas, mas certamente a experiência expandiu meu conhecimento na área e aumentou meu nível de sensibilidade à causa, porém se eu estacionar aqui e achar que isso basta, cairei num ostracismo que logo me fará retornar à estaca zero, o arquiteto e urbanista precisa estar em constante atualização, ele é e sempre será um eterno estudante.


Aqui usei o exemplo da acessibilidade, pelo que passei como experiência empírica, mas meu grande objetivo é que esse ensinamento se expanda para todas as áreas da arquitetura e do urbanismo, desde o projeto do edifício até, e principalmente, no planejamento de cidade, onde você poderá intervir na vida milhares de pessoas e se você não souber pelo que elas passam, correrá um sério risco de criar uma cidade segregada e que promove desigualdades ao invés de combatê-las, uma cidade que não atende a uma demanda real e sim a uma fantasia e talvez até a um mero “fetiche acadêmico”, precisamos sair urgentemente deste suposto pedestal que muitos acham que o diploma nos leva e começar a planejar de maneira horizontal e democrática, como forma de formular resultados válidos através da experiência sensorial de Aristóteles e John Locke e saber que nossa técnica apenas contribui para a formulação de soluções, temos que saber unir vivência e experiência, você não precisa necessariamente morar numa comunidade para intervir urbanisticamente nela, nem ter andando numa cadeira de rodas para entender sobre acessibilidade, mas projetando de maneira horizontal e democrática o problema poderá se resolver de forma muito mais rápida e prática, é preciso sempre entender a importância do nosso papel de arquitetos e urbanistas nesse processo de transformação mas é preciso ter a humildade de saber também que na verdade e a priori eu não sei de nada, você não sabe de nada, nós não sabemos de nada.

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