08 motivos que colocam Medellín na vanguarda da prática urbanística


O arquiteto e urbanista precisa estar sempre em processo de atualização sobre o que se faz no mundo em sua área profissional, os que preferem a zona de conforto, acabam condenados a um abismo de ostracismo e atraso que podem levá-los a decisões equivocadas e fora de seu tempo, que não mais atenda àquelas necessidades, o arquiteto e urbanista não só deve atualizar-se, mas estar a frente de seu tempo, na vanguarda de sua prática. Dizem que o bom jogador de xadrez está sempre 10 jogadas a frente de seu adversário e é isso que o arquiteto e urbanista precisa ser, um bom jogador de xadrez, onde no urbanismo o tabuleiro são nossas cidades e o adversário os desafios contidos nela, resolvidos de forma multidisciplinar, tendo o urbanista o papel de reunir todas essas informações depois de entender como funciona toda a lógica do problema e o sistema em que ele está colocado, diagnosticá-los, procurar soluções e por em prática todas as potencialidades encontradas. Foi na busca por essa constante atualização profissional que cheguei até a Colômbia, atraído pelas mundialmente famosas transformações das cidades de Bogotá e Medellín, onde passei cerca de duas semanas investigando cada detalhe e tentando desvendar os segredos que levaram as duas cidades a sair de uma situação de guerra civil não declarada (sobretudo em Medellín) a exemplos mundiais de requalificação urbana, mobilidade sustentável e inserção social. Nas duas cidades pude vivenciar, conversar com moradores e funcionários do poder público, utilizar o transporte público, estrutura cicloviária, espaços públicos, visitar comunidades pobres hoje pacificadas e conhecer todo o sistema desta tão bem sucedida ação de planejamento de uma cidade, que buscou um urbanismo que combate desigualdades ao invés de criá-las e que agiu entendendo a lógica do sistema e enxergando as pessoas e suas vidas como o bem mais precioso.


Toda essa pesquisa foi feita de maneira pessoal, numa viagem feita com um amigo a quem agradeço a companhia e a ajuda, Sheldon André, também arquiteto, fiz tudo de maneira informal, com financiamento próprio e a princípio apenas com o objetivo de me atualizar como profissional e aprender com os bons exemplos, mas devido aos bons resultados obtidos e a chance de trazer esses bons exemplos para nossas cidades brasileiras, devido às suas semelhanças sociais e políticas do chamado “3º mundo”, acabou dando origem à palestra “Da Violência à Convivência”, já ministrada por mim em alguns eventos (entre em contato para saber mais sobre ela e veja os posts anteriores, neste mesmo blog) e dará origem a outros artigos com os resultados e ensinamentos obtidos nessa visita, dos quais este é o primeiro. Neste, em específico e como o próprio título já diz, darei um foco em Medellín e no por quê desta estar na vanguarda da prática urbanística atual, uma visita quase que obrigatória a todo profissional que se interessa em planejamento urbano, mobilidade sustentável, espaço público e programas de inserção social e combate a desigualdades e violência urbana. Vamos inicialmente contextualizá-la e depois apresentar cada uma das principais ações que dão o mérito deste título à cidade. É válido lembrar, antes de tudo, da nossa limitação enquanto profissionais, que infelizmente acabamos dependendo demais do poder público, e que nele está a responsabilidade em ter acima de tudo, vontade política de mudar, isso tem papel preponderante em todo o processo que fez Medellín estar na vanguarda do pensamento e da prática urbanística desde então (1).


Já é do conhecimento de muita gente, principalmente aqueles que estudam o assunto mais profundamente, sejam eles da área do conhecimento que forem, que Medellín, na Colômbia passou por uma verdadeira revolução nos últimos 15 anos, ou seja, o século XXI marca o renascimento de uma cidade que já foi considerada a mais desigual e violenta do mundo, com uma absurda taxa de 381 homicídios por 100 mil habitantes (quase 10.000 homicídios num único ano). Para você que não entende o que isso significa, pode tirar como parâmetro o fato da média mundial ser de 6, a cidade mais violenta do Brasil ter uma taxa ao redor de 70 e a da mais violenta do mundo em 2014 ter sido algo ao redor de 170 homicídios por 100 mil habitantes, segundo dados da ONG mexicana Consejo Ciudadano para la Seguridad Pública y Justicia Penal (2).


Todo esse caos e guerra civil não declarada naquela cidade tinham como principais agentes causadores a imensa desigualdade social (cerca de 60% da população estava abaixo da linha da pobreza) e o narcotráfico, que literalmente comandava não só a cidade, mas todo o país, tendo em Pablo Escobar a sua principal figura, sustentados ainda pelo apoio político de alguns representantes corruptos nos mais altos escalões do estado colombiano. Toques de recolher às 18:00h e o pagamento de U$1.000,00 por cada policial morto, que chegou a fazer da cidade quase que um cemitério a céu aberto, eram extremamente comuns. Não vou aqui me alongar na história de Pablo Escobar e do narcotráfico colombiano, o que nos interessa agora é saber que o mega traficante acabou sendo morto numa batida policial e com a morte dessa importante e principal liderança, o narcotráfico descentralizou-se e enfraqueceu, em poucos anos a taxa de homicídios caiu pela metade, mas ainda assim era considerada absurdamente alta, mais alta até mesmo que a da atual cidade mais violenta do mundo, dado citado no parágrafo anterior, afinal uma das causas estava enfraquecida, mas a outra não só permanecia intacta como crescia, a desigualdade social.


Inspirados no modelo de Bogotá, que o final da década de 90, sob a liderança dos prefeitos Antanas Mockus (1995-1997/2001-2003) e Enrique Peñalosa (1998-2000), iniciaram um enorme processo de mudanças na cidade que se inicia com altos investimentos em programas de cultura cidadã e valorização da vida e tem continuidade com reformas estruturais no modelo de segurança pública, transporte, espaço público e educação que serão em breve detalhadas em novo artigo, Medellín resolveu que também precisava renascer, ainda que partindo de uma situação ainda mais alarmante que a da sua cidade inspiradora, por isso o plano de Bogotá teve que ser adaptado àquela realidade, e culmina num sucesso ainda mais espantoso e extraordinário, o que já derruba qualquer argumento falacioso e derrotista sobre possíveis diferenças entre as cidades brasileiras, sejam ela culturais, econômicas ou sociais, pois nos mostra que o conceito pode ser adaptado e aplicado em qualquer cidade do mundo, basta ter vontade política de mudar. Entre os anos de 2004 e 2010, sob a liderança dos prefeitos Sergio Fajardo (2004-2007) e Alonso Salazar (2008-2010), ambos educadores que acreditavam na educação como o principal instrumento de transformação da realidade social de uma cidade e tiveram nela a sua principal bandeira, a cidade começou a vislumbrar o seu renascimento.

Contextualizada toda a situação da cidade, podemos agora finalmente enumerar algumas dessas ações em urbanismo e planejamento que tiveram papel essencial nos resultados obtidos e descobrir os "segredos" de Medellín, segundo este autor que vos fala.


01 – A metodologia de planejamento


A cidade teve uma metodologia de planejamento que para você urbanista ou estudante, pode parecer bastante óbvia, mas que infelizmente não é colocada em prática de verdade na maioria de nossas cidades e quando é colocada, acaba sendo de maneira superficial. As etapas são as seguintes:


- Participação popular: Seguindo o princípio da transparência na gestão pública, o poder público entendeu que tão importante quanto a palavra técnica, era a palavra do usuário, daquele que vive diariamente aquela realidade e sabe das suas necessidades, por isso o planejamento deve ter a comunidade como ator principal, reconstruindo o valor da cidadania e aceitando o problema da violência como uma dívida social e combatê-la vai além de combater a criminalidade por si só, é também “combater a construção cotidiana dos medos e a insegurança no imaginário” (CAVALCANTI, 2013).


- Descrição do problema: é preciso diagnosticar e descrever cada um dos problemas que precisam ser atacados, sempre procurando entender a sua lógica e os seus porquês, dentro daquela realidade. Medellín conta com um eficiente sistema de medições de índices sociais que mapearam muito bem todo o território e puderam indicar onde estavam os menores índices qualidade de vida e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), para que estas fossem as áreas de investimento prioritário.


- Definição do objetivo geral: Existem soluções para cada um dos problemas diagnosticados, mas é necessário ter um objetivo geral para todas essas intervenções sem jamais pensá-las de forma isolada, temos que entender cidade como um organismo único e coletivo, onde cada uma das intervenções estão interligadas direta ou indiretamente. No caso das intervenções de Medellín, o objetivo geral inicial era o combate à violência, que era fruto direto do problema com a desigualdade social, que seria consequentemente também combatida.


- Tipificação dos componentes para dar resposta ao problema: Diagnosticados os problemas e tendo um objetivo geral muito claro, temos que enumerar cada uma das respostas a cada um dos problemas diagnosticados, sem jamais esquecer que cidade é um organismo único e coletivo, onde cada uma das intervenções deverão estar interligadas direta ou indiretamente.


- Apresentação dos projetos e discussão com a comunidade: Após toda a etapa de estudos, levantamento de dados e desenvolvimento do projeto, seguindo o princípio da transparência, todos os projetos são colocados para discussão, onde podem sofrer intervenções por parte dos moradores até chegar num resultado final.


- Gestão: Ainda que não tenha interferência direta do profissional urbanista, a gestão das intervenções por parte do poder público é muito importante para toda a metodologia de projeto. Medellín possui uma estatal própria, a “Empresa de Desarollo Urbano - EDU” (Empresa de Desenvolvimento Urbano), que garante a gestão de todos esses projetos e sua continuidade, os projetos são da cidade e não de uma gestão e a transparência no uso desses recursos e seu consequente bom resultado garante ainda uma confiança de parceiros e investidores futuros.


02 – Equipamentos e Espaços Públicos de Alta Qualidade


Uma das coisas que mais me admirou em Medellín, é o alto nível de acabamento e qualidade arquitetônica de todos os equipamentos públicos. A Colômbia como um todo, possui uma lei de 1994 que obriga que toda obra pública (seja ela de edifício ou de urbanização) seja fruto de concurso público de projetos, o que já traria por si só uma maior qualidade dos equipamentos públicos, mas Medellín conseguiu ir ainda mais alto, a filosofia iniciada por Fajardo tinha como princípio a frase “O melhor para os mais pobres” e assim o fez, cada uma das mais violentas e desiguais comunidades de Medellín mapeadas recebeu equipamentos públicos de altíssima qualidade arquitetônica, como os parques biblioteca, por exemplo, todos acompanhados de grande obra de requalificação e recuperação de espaços públicos no entorno. Essas obras de requalificação e as edificações de alta qualidade mexem diretamente na alta estima do morador, cria a sensação de pertencimento, que automaticamente protege o equipamento de eventuais vandalismos, pois os próprios moradores se policiam quanto a isso, junto a isso cria um espaço de lazer para os jovens e estimula a ocupação das ruas pelas pessoas. Quando fomos às famosas escadas rolantes da comunidade de San Javier, por exemplo, duas coisas nos fizeram ficar “boquiabertos”, o alto nível de acabamento da obra e como os moradores zelam por aquilo, inclusive muitos deles (devidamente identificados por coletes) fazem oficialmente todo o controle de segurança e informação do lugar. Vale ressaltar ainda o alto nível das obras de requalificação e edifícios públicos espalhados pela cidade, também na região central.


​03 – Os Parques-Biblioteca


Dentro do slogan “Medellín, la mas educada”, ainda que fazendo parte dos exemplos na questão dos equipamentos públicos de alta qualidade, os parques biblioteca merecem um lugar especial nessa lista, pois foram uma espécie de “carro chefe” de todo o processo. Os parques-biblioteca são bibliotecas públicas que vão muito além do lugar de leitura, foram cuidadosamente pensadas para serem ponto de encontro dos jovens da comunidade e estimulador de cultura, que, fazendo jus ao nome de parque, têm ainda toda uma obra de urbanização do entorno com espaços públicos de lazer com um cuidado, acabamento e áreas verdes tão bem pensados que é difícil acreditar estar numa periferia, considerando a nossa realidade brasileira. Elas foram inicialmente pensadas pelo prefeito Fajardo, a partir de 2004 e segundo o diretor do parque biblioteca de San Javier, que gentilmente nos recebeu e nos deu excelentes informações não só sobre o equipamento, mas também sobre as transformações na cidade, não possui qualquer verba particular, sendo todos frutos de verba pública bem administrada, nos disse ainda que em apenas três anos de programa, cinco dos oito atualmente existentes já estavam erguidos e funcionando. O mesmo complementou as informações afirmando: “aqui não houve milagre nenhum, como dizem, o que teve foi transparência na administração do dinheiro público e vontade política de mudar”.


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04 – Integralidade entre projetos


Um dos pontos mais importantes no projeto urbano é conseguir entender a cidade como um único organismo, onde cada intervenção seja pensada de forma integrada. Os projetos de Medellín, apesar de terem como objetivo geral a diminuição da violência, atingiram problemas de forma multidimensional e colocaram em prática o Urbanismo Social, definido por Jáuregui (2010) como um urbanismo em que “tudo que existe deve ser transformado democraticamente”. Além disso foram pensados não como soluções isoladas, mas como parte de um único plano urbano, em que, por exemplo, um parque biblioteca, que tenha além do equipamento cultural um equipamento de lazer e ponto de encontro, receba no seu entorno um espaço público de qualidade para o esporte e o lazer que estimule às pessoas a estarem nas ruas, funcione nele outros equipamentos, como o programa Cedezo (Centro de Desenvolvimento Empresarial Zonal), que tem como objetivo estimular e acompanhar o empreendedorismo na comunidade, numa relação pessoal “porta a porta”, estimulando a economia local e gerando empregos, o que evita que mais pessoas se desloquem por grandes distâncias numa ida e volta ao trabalho (Alonso Salazar, ex prefeito da cidade, dizia “Medellín, não depende apenas de seus governantes, mas também da capacidade de empreendedorismo de seu povo”) e toda essa complexa teia de serviços públicos tenha um transporte público altamente eficiente a poucos quarteirões, ligando a outros pontos da cidade, mostrando assim a importância de um projeto integrado não só na questão da multidisciplinaridade na resolução do problema, mas da integração desses equipamentos e serviços ao resto da cidade como um todo. Em urbanismo, pensar soluções de maneira totalmente isolada do todo é um verdadeiro suicídio. A imagem abaixo resume muito bem essa integração: mais ao fundo o Parque-Biblioteca com parte da comunidade à esquerda, à sua frente uma sede do programa Cedezo, uma requalificação de espaço público com área de lazer e em primeiro plano uma passarela de acesso vindo da estação de metrô/metrocable.



05 – Priorização das ações – “O Melhor para os mais pobres”


Desde o início do processo, o poder público de Medellín, a partir da filosofia do “Melhor para os mais pobres” iniciou uma intensa pesquisa de mapeamento da cidade, onde a baixa qualidade de vida e IDH norteariam onde o governo deveria priorizar suas ações, entendendo que a desigualdade social e o déficit educacional da população eram os principais causadores da violência que assolava a cidade, passando assim a entender a violência não apenas como caso de polícia, mas como uma dívida social que precisava ser zerada.


06 – Um transporte público eficiente, integrado e multimodal


Temos que entender cidade como algo que não pode ser individualizado, assim como será enquanto, por exemplo, a cultura do carro estiver vigente, pelo simples fato de ser um sistema insustentável e autodestrutivo, mas para que as pessoas deixem seus carros em casa e façam jus ao nome de “carro de passeio”, ou o utilizem apenas quando realmente precisam dele e não para “comprar o pão na padaria da esquina”, o primeiro passo é criar alternativas de alta eficiência e baixo custo que atraia esses novos usuários e isso passa diretamente pelo investimento no transporte público, que em linhas gerais correspondem a cerca de 70% dos deslocamentos na cidade, é isso mesmo, pensando a cidade para o carro, estamos pensando em pouco mais de 30% da população, em detrimento de todo o resto. Quando chegamos à Medellín, tínhamos como objetivo vivenciar a cidade e para isso é essencial utilizar do transporte público, por ser um serviço básico que pode servir de forte parâmetro para o nível de qualidade de vida de uma cidade. Medellín conta com um sistema de transporte público que, como todas as outras obras estruturantes, fazem parte de um único plano maior, um sistema com alto nível de acabamento e integração de modais, que conta com: Metrô, Metrocable (Teleférico), BRT (ainda em fase de implantação) e Micro-ônibus.


O metrô é uma solução bem conhecida por ser altamente eficiente, mas que tem obras extremamente caras e onerosas para a cidade, levando a um benefício de longo prazo, fugindo um pouco desse ônus, o metrô de Medellín conta com uma estrutura 100% de superfície, numa linha que corta toda a cidade num eixo norte-sul indo e voltando. Totalmente integrado ao metrô e também dando continuidade com a filosofia do melhor para os mais pobres, o poder público desenvolveu o MetroCable, os famosos teleféricos de Medellín, que, ao contrário do uso turístico casual a que se destina na maioria dos casos pelo mundo, foi transformado em transporte público para dar acesso às comunidades pobres e assentos informais em altitudes mais elevadas e íngremes, já que a cidade conta com um relevo de altitudes bastante variadas. As regiões dessas comunidades e outras regiões da cidade à leste e oeste onde o sistema de teleféricos não chega, por fatores variados, são atendidas por micro-ônibus. Ou seja, temos um sistema totalmente integrado e cuidadosamente pensado para atender principalmente a população mais pobre. O resultado de tudo isso foi um aumento de 30% no número de usuários do transporte público, que em 2014 chegou a cerca de meio milhão por dia e só na comunidade de Santo Domingo 30 mil pessoas são transportadas diariamente pelo metrocable. Complementar a isso e mesmo com um relevo de altitudes variadas, Medellín possui uma considerável estrutura cicloviária, além da ciclofaixa de lazer, aberta aos domingos e que pudemos presenciar, um sistema de bicicletas compartilhadas (EnCicla) que interliga universidades e áreas importantes da cidade e conta com o programa de caronas “Comparte tu carro”.



07 – A importância dada aos espaços públicos e a cultura cidadã


Como foi dito anteriormente, Medellín seguiu o conceito bem sucedido aplicado em Bogotá, apenas adaptando-o à sua realidade e este ponto é onde mais podemos ver semelhança direta entre o que foi feito nesta e naquela, a extrema importância dada ao espaço público, às calçadas, à vivência na rua e a promoção da cidadania e da boa convivência na busca de uma cidade melhor para todos. Na questão da violência essas ações tiveram papel essencial, na medida em que espaços como esses promovem um maior dinamismo no uso da cidade, promovem mais pessoas nas ruas e a consequente vigilância natural, aquela feita pelas próprias pessoas que ali estão, afinal, onde você mais teme ser vítima, por exemplo, de um latrocínio, numa rua vazia, ou numa praça lotada de pessoas? Em que situação você está mais propenso a ser assaltado, numa parada de ônibus sozinho ou acompanhado de várias pessoas? É um conceito de segurança preventiva bastante lógico, mas que poucos de nós atentam para isso, o espaço público atrativo e o cuidado no trato dessas áreas tira a sensação de abandono, de falta de lei e ordem que automaticamente inibe a ação da violência, isso não é nada mais do que o conceito “olhos da rua”, tão bem colocado na obra de Jane Jacobs (2000), quando ela diz que “o principal atributo de um distrito urbano próspero é que as pessoas se sintam seguras e protegidas na rua em meio a tantos desconhecidos”.


A cidade é reconhecida mundialmente e, segundo dados da EMBARQ, instituição internacional de pesquisa em cidades sustentáveis e desenvolvimento urbano, Medellín havia criado até 2012 (3), 1,6 milhões de metros quadrados em novos espaços públicos, espalhados em 25 parques e 11 passeios urbanos. Minha experiência pessoal nesses espaços eu posso dizer que foi extraordinária e enriquecedora, ressaltando ainda que não foram criados apenas para a área nobre, em algumas regiões de periferia visitadas se quer pareciam regiões pobres, como estamos acostumados a ver em nossas cidades brasileiras, o fino trato do espaço público para os mais pobres é evidente aos olhos. Na região central da cidade posso exemplificar essa importância dada ao espaço público com algo que aconteceu conosco lá. Uma das pouquíssimas coisas que me decepcionaram em Medellín, foi quando tentamos acessar as margens do Rio Medellín e saber se algo como um parque linear ou coisa do gênero havia sido feito por lá, não conseguimos, o acesso estava extremamente dificultado pelo trânsito intenso e nenhuma medida de proteção ao pedestre naquela área, fiquei com uma "pulga atrás da orelha", por que uma cidade que se preocupou tanto com os pedestres não trabalhou aquela região tão importante? Meses depois, já no Brasil, descubro o projeto "Parques Del Rio Medellín", uma ousada proposta urbanística prestes a ser posta em prática que irá levar todo o trânsito para caminhos subterrâneos e transformar toda aquela região num grande calçadão de pedestres para esporte e lazer da população, com cerca de 2.400Km de extensão e uma área de 150.000 metros quadrados (4). Problema resolvido. Um outro amigo arquiteto, que visitou a cidade depois de mim, me informou ainda que quando ele estava lá, a prefeitura estava expondo publicamente o projeto e aguardando sugestões antes de dar prosseguimento à concretização do projeto. Acho que não preciso dizer mais nada...


A questão da cidadania é outro fator importante, era preciso colocar na cabeça das pessoas que uma nova cidade era possível e seguindo o bem sucedido modelo de Bogotá, tudo deu certo, fato esse que posso exemplificar numa breve experiência que tivemos num café da manhã perto de onde estávamos hospedados. Estávamos numa padaria ali perto, haviam vários estabelecimentos lado a lado ao longo de um quarteirão e estes tinham suas vitrines rentes à calçada e os que precisavam, colocavam mesas na calçada, porém algo me chamou atenção, eu percebi que as mesas estavam lá, mas com um cuidado de não ocupar a calçada por completo, que havia um generoso e considerável corredor criado entre as lojas e as mesas, por onde as pessoas podiam caminhar tranquilamente, curioso perguntei para a moça que nos servia se havia algum tipo de fiscalização mais rígida naquela região para evitar a ocupação irregular das calçadas, explicando que isso era muito comum de onde viemos, ela então faz uma cara de que achou estranha a pergunta e diz mais ou menos assim: “não, aqui não tem nenhuma fiscalização assim mais rígida, é questão de educação, isso partiu da nossa consciência, as pessoas precisam passar, a prefeitura também fez um bom trabalho de conscientização conosco”, e complementa sorrindo: “além disso, esse corredor permite que os clientes vejam nossa vitrine”.



08 – Entender o sistema antes de planejar as ações


Um dos maiores méritos de Medellín talvez tenha sido esse, o de tentar entender o sistema em que o problema está inserido, ter consciência dele, suas causas, consequências e a partir da participação popular, planejar as ações que norteariam o planejamento da cidade e seu posterior crescimento, não cometendo o mesmo erro de nossas cidades, o de colocar o debate técnico acima do debate humano, ao invés de trabalhar uma equidade nos temas, isso tudo sem se prender ao discurso meramente teórico e ideológico preso a utopias e partindo para ação concreta e direta dentro de um plano geral e objetivos muito bem colocados. Sendo assim o poder público e seus profissionais envolvidos, sobretudo urbanistas, precisariam entender qual a verdadeira causa dos altos índices de violência, que era consequência direta de desigualdade social vigente (chegou a ser considerada a mais desigual do planeta em meados dos anos 90) e dos baixíssimos índices educacionais, da falta de opções de lazer para os jovens, precisou entender ainda que todos esses problemas eram frutos de uma dívida social que precisava ser aceita e paga e ter reconstruído todo o valor de cidadania e autoestima daquela população, que deveria ter contribuição direta em todo o processo de mudança, combatendo ainda não só a criminalidade exposta em taxas de homicídios, latrocínios, estupros, etc, mas também desconstruir os medos e a insegurança do imaginário popular, era preciso sobretudo mostrar e fazer todos acreditarem que uma nova cidade era possível.



São oito motivos que provavelmente poderiam ser detalhados e dar a origem a muitos outros (assim como apresento na minha palestra sobre o tema), que daria margem a uma boa discussão sobre o assunto que certamente sairia do campo do urbanismo para atingir dimensões ainda mais complexas da política, da sociedade, economia e até do sistema capitalista em si. O título de vanguarda da prática urbanística pode parecer exagerado para alguns, mas para mim definitivamente não é, fui até lá justamente para comprovar se tanto ela quanto Bogotá “são isso tudo mesmo” e comprovei que são, mas por favor, caro leitor, não confunda isso com dizer que a cidade é um paraíso na terra, Medellín conseguiu derrubar sua taxa de homicídios de 381 para pouco mais de 30, em duas décadas, mas não significa que não haja mais problemas com a desigualdade social, o tráfico de drogas e a violência urbana, porque eles ainda existem por lá, continua sendo uma cidade do chamado 3º mundo e você deve tomar suas precauções ao visitá-la, o que posso afirmar categoricamente aqui é que Medellín mostrou ao mundo que é possível mudar a realidade de uma cidade em estado de caos e desordem e por no caminho certo, pois ela possui seus problemas intrínsecos ao 3º mundo, a grande diferença é que ela está caminhando pra frente, no rumo de uma cidade mais igualitária e digna para sua população, principalmente a mais velha, que viveu na pele o terror de duas décadas atrás e se vê aliviada por ver que aquela realidade ficou no passado e seus filhos e netos agora tem um lugar melhor para viver. Esqueçamos um pouco do pessimismo derrotista do "não somos a Europa" e vamos acreditar que uma nova cidade é possível e é este o principal objetivo deste artigo, se ele não te convenceu, talvez os gráficos abaixo te convençam.


Certamente temos exemplos extraordinários de cidades que se tornaram sustentáveis e de projetos urbanos admiráveis como Nova York, Amsterdã, Hamburgo e a icônica Copenhagen, porém, nenhuma delas partiu de uma realidade tão caótica e potencialmente destrutiva como Medellín e é por isso que eu dou este título a ela. Portanto, caro arquiteto e urbanista, essa é uma visita obrigatória pra você que quer se atualizar e aprender urbanismo na prática e dentro de uma realidade muito similar à de nossas terras brasileiras e também para você que se interessa por temas como programas sociais, programas alternativos de combate à violência, inserção social, etc, valendo dizer ainda que este mesmo modelo já está sendo posto em prática em outras cidades pelo mundo, já se tem notícias de resultados em Guayaquil, no Equador, por exemplo. Por favor, não confundam este artigo com um discurso meramente teórico e ideológico, não estou inventando ou imaginando resultados, tudo que está aqui escrito não está sendo inventado, é uma constatação que nasceu fruto de uma experiência real, conferindo tudo “inloco”, de vivência e muitas conversas que meu eficiente “portunhol” me permitiu, que me possibilitaram conhecer um programa de ações em planejamento urbano que, juntamente a outras áreas de ação, tiveram papel essencial na transformação de uma realidade de caos e desordem para um exemplo mundial em mobilidade sustentável, requalificação urbana e efetivo combate à violência, tendo como principal bandeira a melhor de todas as armas, a educação.



Referências:

  1. MEDELLÍN: Uma cidade sem arame farpado, 07 out. 2013. Disponível em < http://www.revistaforum.com.br/urbanidades/2013/10/07/medellin-uma-cidade-sem-arame-farpado/>

  2. LAS 50 Ciudades Más Violentas Del Mundo 2014, 19, jan. 2015. Disponível em <http://www.seguridadjusticiaypaz.org.mx/biblioteca/download/6-prensa/198-las-50-ciudades-mas-violentas-del-mundo-2014>

  3. SÃO Francisco e Medellín vencem o Prêmio de Transporte Sustentável 2012, 24 jan. 2012. Disponível em <http://embarqbrasil.org/news/s%C3%A3o-francisco-e-medellin-vencem-o-pr%C3%AAmio-de-transporte-sustent%C3%A1vel-2012

  4. PRIMEIRO lugar no concurso internacional para o Parque do Rio em Medellín, 09 jan. 2014. Disponível em <http://www.archdaily.com.br/br/01-165814/primeiro-lugar-no-concurso-internacional-para-o-parque-do-rio-em-medellin>


CAVALCANTI, Murilo (Organizador). As lições de Bogotá e Medellín – Do caos à referência mundial. Recife. INTG, 2013.


JACOBS, Jane. Morte e Vida de Grandes Cidades. São Paulo. Martins Fontes, 2000.


JÁUREGUI, Jorge Mário. Urbanismo Social. Revista Desafios do Desenvolvimento. Brasília, Ed. Nº 63, p.39, Nov. 2010.


Todas as imagens são de autoria própria, com exceções para os gráficos de taxa de homicídios e mapa geral de linhas de metrô e metrocable, fornecidos pela Prefeitura de Medellín e da imagem do Parque-Biblioteca Fernando Botero San Cristóbal, de autoria de Orlando Garcia e disponível em <http://www.archdaily.com.br/br/01-78071/parque-biblioteca-fernando-botero-g-ateliers-architecture/78071_78072>


Modelo de referência para citação:

NOBRE, Yuri. 08 motivos que colocam Medellín na vanguarda da prática urbanística. 16 out. 2015. Disponível em <http://www.yurinobre.arq.br/#!08-motivos-que-colocam-Medellín-na-vanguarda-da-prática-urbanística/c9zq/562068520cf2c3576e60c169>

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